Dia Mundial dos Manguezais
Por Dina Constantinides

Sabia que existe um dia inteiro dedicado aos manguezais? Dia 26 de julho é conhecido como o Dia Internacional para a Conservação dos Manguezais (ou somente Dia Mundial dos Manguezais) adotado pela conferência geral da UNESCO em 2015. O objetivo desse dia é divulgar informações e sensibilizar o público sobre a importância desses belos ecossistemas e como protegê-los de uma maneira melhor.

O que é um mangue?

Mangues são um grupo diverso de árvores e arbustos perenes localizados na zona costeira entre-marés em áreas tropicais e subtropicais. O termo mangue se refere às plantas e o termo manguezal se refere aos seus ecossistemas, que são um dos ecossistemas mais produtivos do mundo. Mangues tipicamente vivem em águas barrentas e pouco oxigenadas, ambientes que não permitem que a maioria da vegetação sobreviva. Entretanto, essas plantas únicas prosperam nesse tipo de ambiente devido a uma série de adaptações. Por exemplo, raízes aéreas tem a habilidade de estabilizar o mangue durante as flutuações do nível de água e permitir a absorção de oxigênio do ar, já que ele não pode ser acessado pela água. Nos mangues vermelhos, sistemas de filtração complexos mantém um nível de sal baixo dentro da planta enquanto mangues pretos e brancos excretam sal em cristais pequenos pelas folhas.

Qual é a relevância ecológica dos manguezais? Por que devemos nos importar?

Os mangues não são apenas fascinantes por si só, mas eles também têm um papel ecológico crítico como áreas de berçário e espaços para a alimentação e reprodução de um grupo diverso de peixes, moluscos, crustáceos, pássaros, e mais. Eles também fornecem uma variedade de serviços ecossistêmicos muito importantes como: habitat para espécies de importância econômica, sequestram dióxido de carbono da atmosfera, estabilizam o sedimento para proteção contra erosão, e protegem a área contra inundações, vento forte, e tempestades. Apesar de constituírem uma porcentagem pequena das florestas do mundo, eles armazenam uma quantidade maior de carbono subterrâneo do que qualquer outro tipo de floresta! Manguezais também ajudam bastante a manter águas lindas e cristalinas pela filtração de poluentes e sedimentos – imagine as águas limpíssimas na península de Yucatã – essa qualidade de água não seria possível sem o trabalho escondido dos manguezais!

Manguezais são vitais para a economia e bem-estar das comunidades costeiras e pesqueiras. É estimado que 75% dos peixes tropicais comerciais e os seus próprios ecossistemas são dependentes dos manguezais para sua sobrevivência (Alexandris, 2014). Os mais afetados pela destruição dos manguezais são comunidades costeiras. Em certos casos, manguezais são essenciais para fornecer madeira para ser usada em construção, medicina, tinturas, e gás de cozinha. Em muitos casos esses ecossistemas especiais são de extrema importância cultural para as comunidades vizinhas e são bem valorizados pelas populações indígenas.

Quais são as principais ameaças aos manguezais?

Apesar de sua beleza e importância ecológica e cultural, os manguezais estão sendo severamente ameaçados pelos impactos antropogênicos. 25% dos manguezais no brasil foram destruídos desde o começo do século XX (Schaeffer-Novelli, 2018) e cerca de 35% dos manguezais do mundo já desapareceram nas últimas duas décadas (Alexandris, 2014).
Por causa da localização dos manguezais na zona costeira, eles são vulneráveis a uma série de ameaças e atuam como um sumidouro de vários poluentes. Uma das maiores ameaças que os manguezais enfrentam é o desmatamento e conversão de terras para atividades como turismo e construções. Uma outra causa importante da sua perda é o cultivo de camarão, uma indústria que está crescendo rapidamente no sudeste asiático e na américa latina. Áreas gigantes de manguezal estão sendo destruídas numa taxa alarmante para criar lagoas para esse tipo de aquicultura, responsável por 20-50% da área de manguezal convertida (Kauffman et al., 2018). A poluição hídrica e mudanças na bioquímica do solo também podem ameaçar os manguezais, muitas vezes devido às lagoas de cultivo de camarão vizinhas ou sistemas de tratamento de esgoto ineficientes.

Daqui para frente, mudanças climáticas estão entre as ameaças mais sérias enfrentadas pelos manguezais. Temperaturas instáveis, aumento do nível do mar e eventos climáticos mais frequentes como incêndios e inundações são todos muitos preocupantes para a saúde desses ecossistemas.

O que pode ser feito para ajudar?

Felizmente, a restauração dos manguezais é tipicamente um processo bem rápido em comparação com a de outros tipos de floresta. Organizações ao redor do mundo estão trabalhando para encontrar soluções e tentar mitigar os efeitos negativos das mudanças climáticas e da destruição antropogênica dos manguezais por projetos de restauração. Aqui em Itacaré, nós estamos trabalhando para replantar mangues brancos na beira do Rio de Contas, ao longo da área em que ele começa a se misturar com o mar e aonde eles foram destruídos para construção de infraestruturas. Os objetivos desse projeto são envolver a comunidade local e os jovens num esforço para restaurar partes do ecossistema e enfatizar a importância dos manguezais para a cidade de Itacaré. Através de um ângulo de ciência cidadã, esperamos criar uma oportunidade para a educação ambiental e conexão com a beleza natural da cidade, contribuindo assim para que tenhamos cada vez mais cidadãos apaixonados pela natureza e pela sua proteção.

Tipicamente, a estratégia mais eficaz de replantar manguezais é plantar os seus propágulos diretamente ao invés de plantar as suas sementes. Vários fatores podem afetar o sucesso ou a falha de projetos de restauração, incluindo: a ocorrência e extensão das atividades antropogênicas, as características do local (tipo de solo, topografia, pH, energia das ondas, etc.), e a presença ou falta de um plano de monitoramento para acompanhar o sucesso do projeto (Kissoon).

Aqui em Itacaré, muitos dos propágulos plantados se desenvolveram bem e esperamos continuar tendo sucesso em nossos esforços! Portanto, estamos desenvolvendo um plano de monitoramento em que a comunidade pode participar e acompanhar o progresso do crescimento das árvores enquanto investigamos quais fatores podem estar afetando o sucesso do projeto. Se você tiver interesse em participar, entre em contato com a gente!

Referências:

Alexandris, N., Chatenoux, B., Lopez Torres, L., and Peduzzi, P. (2013): Monitoring mangrove restoration from space, UNEP/GRID-Geneva

Da Silva Passareli, L. (2013, June). Manguezais Sob uma Perspectiva Social e Econômica: Percepção Ambiental e Valoração do Manguezal do Estuário do Rio Paraíba do Sul, Rio de Janeiro [PDF]. Campos dos Goytacazes: Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

Kauffman, J. B., Bernardino, A. F., Ferreira, T. O., Bolton, N. W., Gomes, L. E., & Nobrega, G. N. (2018). Shrimp ponds lead to massive loss of soil carbon and greenhouse gas emissions in northeastern BRAZILIAN MANGROVES. Ecology and Evolution, 8(11), 5530-5540. doi:10.1002/ece3.4079

Kissoon, I. (n.d.). GMRP Mangrove Restoration Monitoring Plan [PDF].

Schaeffer-Novelli, Y. (2018). Mangue e Manguezal. In 1437027619 1043576482 M. Antonio Gonçalves (Ed.), Atlas dos Mangeuzais. Brasília, Distrito Federal: Instituto Chico Mendez de Conservação da Biodiversidadede.

Tropical Research and Conservation Center. (n.d.). Niger Delta Citizen Science Project [PDF].

US Department of Commerce, N. (2009, June 03). What is a mangrove forest? Retrieved July 23, 2021, from https://oceanservice.noaa.gov/facts/mangroves.html#:~:text=Mangroves%20are%20a%20group%20of,in%20the%20coastal%20intertidal%20zone.&text=There%20are%20about%2080%20different,allow%20fine%20sediments%20to%20accumulate.